Técnica
Por que a pizza napoletana é macia no centro?
Não é massa crua e não é defeito. É a consequência direta de três números, 0,4 cm, 485 °C e 90 segundos, e de uma proibição que parece implicância e não é.
Arvorecer Pizzaria & Forneria4 min de leitura

É a reclamação mais comum de quem come uma napoletana pela primeira vez: “o meio está molinho”. A resposta é que sim, está, e é para estar. O centro macio não é um acidente que o pizzaiolo não conseguiu evitar; é o resultado inevitável da receita, e se ele ficasse crocante alguma coisa teria dado errado.
Dá para explicar isso inteiro com três números.
Número um: 0,4 centímetro
O disciplinare fixa a espessura do centro em 0,4 cm, com tolerância de 10%, e a da borda em 1 a 2 cm. O disco não é uniforme: ele é uma membrana fina cercada por um anel grosso.
Essa diferença de massa muda tudo no forno. A borda tem volume suficiente para aquecer por fora e continuar úmida por dentro, ela incha, doura e ganha estrutura. O centro, com um décimo da espessura, aquece quase instantaneamente. Não há material ali para secar em camadas e virar biscoito; há uma película de amido gelatinizado com molho em cima.
Número dois: 485 graus
Crocância vem de desidratação. Uma massa fica crocante quando a água dela sai devagar, ao longo de vários minutos, e a estrutura endurece à medida que seca. É o que acontece numa pizza assada a 250 °C por doze minutos.
Num forno a 485 °C o processo é outro. O calor é tão alto que a superfície reage, a massa doura e mancha, o açúcar e a proteína reagem entre si, antes que a água tenha tempo de atravessar e sair. A pizza fica pronta por fora com a água ainda dentro.
- Massa
- 60 a 65 °C
- Tomate
- 75 a 80 °C
- Azeite
- 75 a 85 °C
- Mozzarella
- 65 a 70 °C
Fonte: Disciplinare AVPN / Regulamento (UE) n.º 97/2010
Repare que a massa chega a 60–65 °C. É a temperatura em que o amido gelatiniza e o glúten coagula, o suficiente para a massa estar assada. Está muito abaixo dos 100 °C que ferveriam a água interna e a expulsariam. Por isso ela sai cozida e úmida ao mesmo tempo, o que é exatamente o oposto de crua.
Número três: 90 segundos
O tempo máximo é de 90 segundos. Cada segundo a mais seca a massa e escurece o queijo; cada segundo a menos deixa a borda pálida. É uma janela estreita, e é o motivo pelo qual o pizzaiolo fica no forno em vez de ir para o salão.
Ele levanta a beirada com a pá de aço, gira a pizza em direção ao fogo e a devolve sempre à mesma região do piso, colocá-la num ponto novo significaria encontrar pedra ainda na temperatura cheia, e queimar embaixo. Esse é o movimento rotatório que a UNESCO menciona na descrição da arte do pizzaiuolo.
E a borda, por que ela sobe?
Aqui entra a proibição que parece implicância. O disciplinare veta rolo e prensa mecânica. A razão está no ar.
Depois da segunda fermentação, a bola de massa está cheia de bolsas de gás. Quando o pizzaiolo pressiona com os dedos das duas mãos, do centro para fora, ele não expulsa esse gás, ele o empurra para a periferia, onde vai se acumulando. No forno, o calor expande esse ar de uma vez e a borda infla: é o cornicione.
Um rolo faz o contrário. Ele esmaga as bolsas, e o dossiê europeu descreve o efeito com precisão: forma-se no centro do disco uma área laminada, dividida pelo ar preso no vazio. Depois de assada, essa pizza não tem borda alta, perde a característica principal. O gesto da mão e a borda alta são a mesma coisa; não dá para ter uma sem o outro.
Como saber se está certo ou se deu errado
- Certo: centro fino, úmido e elástico, que dobra sem rachar; borda alta, arejada por dentro, malhada de escuro por fora.
- Deu errado: centro encharcado que escorre e não sustenta nada, costuma ser molho demais, queijo com água demais, ou a pizza esperando na mesa. Comer quente resolve a maior parte disso.
- Deu errado também: centro duro e seco. Nesse caso o forno estava frio demais e a pizza ficou tempo demais dentro dele.
- Borda uniformemente dourada, sem manchas, é sinal de forno mais frio, pode ser uma boa pizza, mas não é uma napoletana.
Fontes
Dá para conferir na mesa
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Se ela dobra a libretto sem rachar, o método foi seguido. É o teste mais simples que existe.
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